Desde sua concepção, a Biomas trabalha para oferecer créditos de carbono de alta integridade. Mas o que esse conceito realmente significa?
A alta integridade é resultado da forma como um projeto é concebido, implementado e acompanhado para gerar resultados reais para o clima, a biodiversidade e as pessoas.
Ela não se define no momento da emissão de créditos de carbono, e sim no entendimento do território, no desenho técnico, na gestão de riscos, na relação com as comunidades e no compromisso de monitorar a floresta ao longo de décadas.
Como explica Marcela Pyles, nossa Gerente de Ciência e Projetos de Carbono, “antes de falar em emissão, olhamos para o que precisa ser restaurado, protegido, compreendido e fortalecido. O crédito é consequência de um projeto íntegro”.
Restaurar com integridade exige um olhar integrado
Marcela destaca que “a integridade nasce de um olhar amplo e aprofundado sobre o território e as relações entre floresta, água, solo, comunidades, produção e governança”.
Essa visão integrada ajuda a garantir que a floresta restaurada não apenas se desenvolva ao longo do tempo, mas esteja conectada a uma paisagem capaz de sustentar sua permanência. Por isso, um projeto de alta integridade combina conhecimento científico, planejamento de longo prazo, monitoramento, gestão de riscos e diálogo com quem vive no entorno.
Nos projetos da Biomas, adicionalidade, mensuração, permanência, transparência, benefícios socioambientais e verificação independente são conceitos essenciais e fazem parte de uma mesma arquitetura, desenhada para garantir que a restauração entregue resultados reais.
Permanência não é promessa: é gestão de risco ao longo do tempo
Um dos principais fundamentos da alta integridade é a permanência da floresta restaurada, ou seja, criar condições para que ela continue existindo e armazenando carbono com o passar dos anos.
Para isso, antes mesmo da implementação, avaliamos os riscos naturais, climáticos, financeiros, fundiários, operacionais e externos. A partir dessa análise, definimos medidas de mitigação, estratégias de monitoramento, responsabilidades, planos de gestão adaptativa e, quando aplicável, mecanismos contratuais de proteção.
Marcela reforça que esse cuidado é essencial porque uma floresta em crescimento está sujeita a diversas ameaças. Incêndios, eventos climáticos extremos, mudanças no uso da terra no entorno, falhas de monitoramento ou pressões econômicas podem comprometer os resultados se não forem previstos e acompanhados.
Diante de circunstâncias que possam afetar sua longevidade, o projeto deve dispor de caminhos alternativos para evitar que sua permanência seja comprometida.
A diferença entre longevidade e período creditício ajuda a entender a alta integridade
Em projetos de carbono associados à restauração, há uma diferença importante entre o período creditício e a longevidade. Conceitualmente, o período creditício é o intervalo no qual o crescimento da floresta gera remoções líquidas de carbono e, portanto, pode gerar créditos. “Mas a alta integridade está na garantia de permanência da floresta após esse período”, continua Marcela.
Essa distinção explica por que o compromisso de longo prazo é tão importante. A qualidade de um projeto não está apenas no que ele consegue gerar enquanto a floresta cresce. Também aparece na sua capacidade de manter o carbono estocado, bem como nos benefícios associados à floresta restaurada nas décadas seguintes.
Um exemplo prático é o Projeto Muçununga, que está restaurando mais de 1.200 hectares de Mata Atlântica no sul da Bahia: seu período creditício é de 40 anos, mas o nosso compromisso com a sua longevidade é de 100 anos. O projeto é uma realização da Biomas com a Carbon2Nature Brasil em parceria com a Veracel, e conta com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES), via Fundo Clima.
Projetos de alta integridade precisam demonstrar que seu benefício é real
Outro princípio essencial é a adicionalidade. Em termos simples, um projeto é adicional quando consegue demonstrar que as remoções de carbono não aconteceriam da mesma forma se ele não existisse.
De acordo com Marcela, “a adicionalidade precisa ser demonstrada de fato e não apenas presumida”. Ela precisa ser construída com base em metodologia, na análise do território e nas barreiras financeiras, operacionais, técnicas e regulatórias, bem como na realidade de implementação.
A mesma lógica se aplica à quantificação do carbono removido. O projeto deve medir seus resultados de forma robusta e verificável. O objetivo não é maximizar o volume de créditos passíveis de comercialização, mas assegurar que cada crédito represente uma tonelada de CO₂ equivalente, removida de forma real e mensurável.
Na Biomas, essa quantificação combina medições em campo, sensoriamento remoto, parâmetros conservadores e tratamento de incertezas. A restauração é acompanhada e sua evolução é detalhadamente registrada para que os dados reflitam o que está acontecendo no território.
Integridade também significa evitar impactos indiretos e gerar benefícios concretos
Projetos de alta integridade também precisam avaliar se a restauração de uma área pode provocar impactos indiretos em outros locais. Um exemplo é o risco de deslocar uma atividade produtiva para outra região, criando novas pressões de desmatamento da vegetação nativa.
Para reduzir esse risco, avaliamos, desde as fases iniciais, o histórico de uso e de produção das áreas, os cenários de linha de base e a possibilidade de aumento de emissões fora da área do projeto. “O objetivo é assegurar que o benefício climático não seja anulado por impactos em outros locais”, afirma Marcela.
No entanto, a integridade não se limita a evitar danos. A restauração deve gerar benefícios mensuráveis também para as pessoas e para a biodiversidade. Isso envolve diagnósticos sociais e ambientais, escuta das comunidades, avaliação de riscos, planos de ação, monitoramento e medidas voltadas à conectividade da paisagem, aos serviços ecossistêmicos e à resiliência do território.
Essa relação é estratégica e, ao mesmo tempo, parte da essência do projeto, pois a permanência da floresta depende também da construção de vínculos, de confiança e de benefícios concretos no território. É, portanto, “impossível pensar em um projeto de restauração sem considerar o efeito das pessoas na floresta e da floresta nas pessoas”, completa Marcela.
A certificação transforma resultados de campo em créditos confiáveis
Depois que um projeto é desenhado, implementado e monitorado, seus resultados precisam ser avaliados por auditorias independentes. É aí que entram as etapas de validação, verificação e emissão.
Como explica Marcela, a certificação garante que o projeto foi concebido e se desenvolve conforme as regras metodológicas do mercado. “Ela orienta o desenho, o acompanhamento, a transparência na geração dos créditos e a rastreabilidade do processo”, afirma.
As etapas de validação e verificação fazem parte do processo de certificação. Enquanto a primeira avalia se o projeto foi planejado de acordo com essas regras, a segunda apura se o que foi implementado corresponde ao que foi validado para gerar resultados reais.
Em momentos pré-determinados, os dados de medições de biomassa, indicadores sociais e métricas de biodiversidade são analisados e, depois, enviados à certificadora, que então decide sobre a emissão dos créditos.
Créditos de alta integridade são consequência de projetos feitos com rigor
Quando um projeto de restauração é estruturado com rigor, implementado com consistência, monitorado ao longo do tempo e verificado de forma independente, os créditos gerados passam a refletir essa qualidade.
Créditos de alta integridade não são apenas um atributo comercial. Eles são a consequência de um projeto que demonstrou adicionalidade, permanência, mensuração confiável, transparência, rastreabilidade e benefícios socioambientais.
Para Marcela, a integridade está no projeto como um todo, e não apenas nos créditos. “Para gerar créditos de alta integridade, o projeto precisa ser feito com base nesses princípios”, explica.
Essa forma de atuação contribui para fortalecer a confiança no mercado de carbono. Em um setor ainda em amadurecimento, sujeito a mudanças regulatórias, políticas e econômicas, projetos bem desenhados ajudam a elevar o padrão de qualidade e a reduzir riscos.
A alta integridade eleva a régua da restauração no Brasil
Quando trabalhamos com projetos voltados à alta integridade, contribuímos para fortalecer o mercado de carbono, elevar seu padrão de qualidade e afirmar a excelência brasileira nesse campo.
A restauração ecológica em larga escala tem um papel importante no enfrentamento das crises climática, social e da biodiversidade. Para cumprir esse potencial, precisa ser feita com responsabilidade, ciência e compromisso de longo prazo.
No nosso negócio, a alta integridade não deve ser entendida como um selo aplicado ao final do processo. Ela é uma forma de fazer restauração que começa no território, atravessa toda a operação em campo e só depois se traduz em créditos capazes de carregar, também no mercado, a qualidade do projeto que lhes deu origem.