Conhecimento

Como a tecnologia geoespacial impulsiona a restauração em larga escala

Publicado em :

14/7/2026

A restauração florestal em escala é um desafio de precisão. Para transformar grandes extensões de terras degradadas em ecossistemas restaurados é preciso saber exatamente onde plantar, como e o que monitorar. Na Biomas, essa jornada conta com o suporte das Ciências Geoespaciais, uma área transversal que combina tecnologia de ponta e consistência metodológica para assegurar que cada projeto seja viável, eficiente e, acima de tudo, confiável.

Marcelo Matsumoto, nosso Gerente de Ciências Geoespaciais, explica que a inteligência territorial e a integração de dados garantem rigor técnico, escala e transparência em cada etapa, desde a identificação das melhores áreas para restauro até o monitoramento do carbono de longo prazo.

A identificação do território para restauração começa com um rigoroso cruzamento de dados para garantir a viabilidade e a segurança dos projetos

Como demonstramos no artigo “Como renasce uma floresta: os bastidores da restauração ecológica”, o sucesso de um projeto começa muito antes da primeira muda chegar ao solo. A primeira atividade é a pesquisa por áreas compatíveis com a restauração em larga escala, o que chamamos de originação de terras.

Nessa busca, as Ciências Geoespaciais têm um papel essencial: por meio da sobreposição de camadas de dados geográficos precisos, nossa equipe consegue identificar territórios estratégicos em biomas florestais, como a Mata Atlântica e a Amazônia. São analisadas variáveis complexas em escala nacional para filtrar terras que apresentem:

  • Elegibilidade rigorosa: áreas sem desmatamento nos últimos 10 anos e que não sejam alagadiças, excessivamente declivosas ou pedregosas, ou que apresentem características que dificultem a restauração;
  • Viabilidade econômica: análise de preços de terra e infraestrutura logística;
  • Segurança jurídica: verificação de sobreposições fundiárias e restrições (como áreas de mineração).

Essa análise funciona como um filtro de mitigação de riscos, permitindo que a visita a campo seja muito mais efetiva, focada em confirmar os alertas potenciais já mapeados digitalmente. “As ciências geoespaciais nos ajudam a transformar ferramentas como imagens de satélites e de drones em inteligência estratégica”, afirma Matsumoto.

Mapeamento detalhado garante eficiência operacional e decisões precisas no dia a dia do campo

Uma vez definida a área, a inteligência geoespacial desce ao detalhe do terreno. Nesta fase, mapeamentos de declividade e topografia são cruciais para decidir quais técnicas de restauração serão empregadas.

Em áreas muito íngremes, por exemplo, o mapeamento define se o plantio será manual ou se exige maquinário específico (como tratores de esteira em vez dos de roda). No Projeto Muçununga, que está restaurando mais de 1.200 hectares de Mata Atlântica, no sul da Bahia, esse suporte técnico permitiu que 94% da área fosse mecanizada, um marco de eficiência para terrenos acidentados.

A integração de diferentes escalas de monitoramento assegura precisão nos dados de captura de carbono

Para projetos voltados ao mercado de carbono, a confiabilidade também depende do cálculo preciso da quantidade de carbono retirada da atmosfera. Para obter essa informação, a área de Ciências Geoespaciais realiza o monitoramento da biomassa, isto é, a medição do "corpo físico” das árvores (composto de tronco, galhos e folhas).

Como as árvores capturam o carbono do ar para crescer, quanto mais madeira elas produzem, mais carbono absorvem e "estocam". Na Biomas, acompanhamos esse crescimento através da integração de três níveis de dados, que Matsumoto chama de "tríade da credibilidade":

  • Inventário florestal: nossa equipe vai a campo e mede o diâmetro e a altura das árvores em setores específicos, que funcionam como amostras do conjunto da área restaurada;
  • Drones sobrevoam a área e capturam imagens de altíssima resolução, permitindo enxergar detalhes da copa das árvores que os satélites não detectam;
  • Imagens de satélites oferecem a visão macro. Usamos os dados coletados pela equipe e pelos drones para "ensinar" as imagens de satélite a calcular o estoque de carbono de toda a área.

Para Matsumoto, a chave está na “tradução do pixel”: cada ponto da imagem de satélite possui uma resposta física que nossa equipe correlaciona com as medições reais feitas em solo. "Traduzimos o que é visto no chão para fazer a projeção para as áreas não amostradas, garantindo uma estimativa de carbono robusta e auditável", explica.

A tecnologia geoespacial também permite quantificar os benefícios da restauração para a recuperação dos serviços ecossistêmicos

A restauração de alta integridade da Biomas busca identificar benefícios que vão além do sequestro de carbono, como a recuperação dos serviços ecossistêmicos. As Ciências Geoespaciais nos ajudam a mensurar esses impactos em diferentes frentes, entre elas:

  • Conectividade (Corredores ecológicos): através da análise da paisagem, nossa equipe identifica as áreas onde a restauração funciona como stepping stones (trampolins), facilitando o trânsito da fauna entre fragmentos florestais. No Projeto Muçununga, essa análise gerou indicadores numéricos precisos sobre a melhoria da conexão da paisagem;
  • Recursos hídricos: o uso de modelos hidrológicos permite estimar como a nova floresta reduz o carreamento de sedimentos para os rios, diminuindo a turbidez da água e aumentando sua qualidade e a recarga dos aquíferos.

A transparência e a auditabilidade digital são os pilares da credibilidade da restauração no mercado global

A evolução tecnológica caminha para a automação e o uso de inteligência artificial para integrar dados, superando desafios complexos como a cobertura constante de nuvens em regiões tropicais. Para a Biomas, esses avanços ampliam a capacidade de monitoramento, rastreabilidade e verificação independente dos projetos.

A delimitação digital das áreas de nossos projetos permite disponibilizar mapas e dados georreferenciados em plataformas de entidades certificadoras, responsáveis por auditar os projetos e validar os créditos de carbono gerados.

Esse processo também torna possível que investidores, compradores e demais atores do mercado verifiquem, de forma remota, transparente e independente, a real evolução das áreas restauradas.

Para Matsumoto, essa capacidade de monitoramento e verificação contínua é um dos fatores que sustentam a credibilidade da restauração em larga escala. "Em nosso mercado, a credibilidade é fundamental. Por isso, zelamos pela qualidade das informações para assegurar que o carbono gerado corresponda à realidade do campo, com a robustez necessária para o futuro da restauração", afirma.